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Mauro Veríssimo
"À minha Bella, a mulher mais admirável dos jardins dos meus sonhos. Minha vida, a ti pertence."
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Passagem - O Grande Cisne Branco
 



Como deve ser a nossa passagem? Confesso, não faço idéia. A vida sempre nos mostra o seu lado monótono porque ela esconde de nossos olhos o verdadeiro teor de sua essência, a nossa efêmera existência.

Mas deixando de falar da vida, vamos falar da passagem, como ela deve ser?

Por muito tempo fiquei a imaginar tal fato. Num dia de folga, fui até a Praça do Lido, no coração de Copacabana, para ver a vida que passava a minha volta, por muito tempo olhei as crianças naqueles brinquedos típicos de uma praça e me perguntava como elas não se arrebentavam no chão, ri comigo mesmo, pois eu, quando criança, fiz muito pior. Enquanto pensava com os meus botões, uma criança chegou bem perto de mim e começou a me olhar com cara de curioso, depois de um tempo  ele me falou em tom inocente, típico de uma criança que, quando morremos, somos levados por um barco para outro lugar. Assustei-me com o que ele falou, mas dei um sorriso e disse que tudo não passava de um sonho que tínhamos quando dormíamos bem, ele riu de mim e saiu correndo de volta para o parquinho. Achei interessante ele ter afirmado em vez de perguntar a respeito, mais ainda sobre a forma que ele obteve aquelas informações da vida além do túmulo. Mas acabei não levando muito a sério. De qualquer forma era tentador pensar no assunto e, depois de um tempo indeterminado entre mim e a minha mente, cheguei há uma possível conclusão, os pais eram muito religiosos e por isso, de alguma forma, eles passaram essa história para ele, depois de algum parente ter morrido e, de forma fictícia, falaram para ele como seria essa travessia. Ri com os meus botões, afinal quando o meu irmão morreu, eu não vi nenhum cisne, sequer um barquinho de papel. Depois de algum tempo, deixei o assunto em segundo plano, para depois esquecê-lo de fato. Afinal a vida era complicada demais para dar muita atenção a tal assunto. Ao imaginar o dia seguinte, com tantos trabalhos a desenvolver, trânsito, faculdade, além do stress diário, que acabei passando a dar mais atenção a minha vida real do que a fantasia.

Já passavam das 8 da noite quando decidi retornar para minha casa, nesse momento já sonhava com a minha cama confortável, a televisão ligada em algum canal de pesquisa científica, o copo d'água sobre a mesa bem do lado da cama e uma boa noite de sono. Imaginar acordar depois de uma noite mal dormida não estava nos meus planos.

Cheguei ao meu apartamento na cobertura do edifício Remanso, que fica na Rua Barata Ribeiro, que dava vista para o Corcovado e ao Pão de Açúcar. Fiquei um tempo a admirar a paisagem e a imaginar a natureza viva que eu sentia ao ver aqueles dois cartões postais a minha frente. Creio que me perdi no tempo e no espaço, a imaginar a afirmação daquela criança. Por volta das 11 horas acabei sendo vencido pelo sono e fui para o meu quarto, nada de espetacular, mas confortável o suficiente para mim e a minha solidão passarem a noite, tinha sido um dia tenso, com vitórias e derrotas, rotinas do dia-a-dia, pensando aqui e ali, acabei por me deitar, mas ainda assim, fiquei com a história do menino na minha mente, não deixava de ser interessante e era tentador demais para pensar em outro assunto. Na vida do outro lado será que eu teria asas? Ou não?

Num riso despretensioso e  já deitado na cama, acabei por olhar a mesinha do lado da cama para dar o último gole d’água antes de dormir, mas o que vi do lado dela foi de assustar.

Uma criança em tom sorridente me pedindo para segui-lo. O susto foi enorme, no entanto, ao perceber que se tratava da mesma criança que me abordou na praça, com o sorriso agradável e segurança inigualável, que acabou por me passar uma paz interior que eu nunca havia sentido. Ele me conquistou a ponto da serenidade dar lugar às altas palpitações do meu peito. Perguntei como ele havia entrado no meu apartamento, já que estava tudo fechado e uma criança não anda por aí a toa pedindo para entrar em edifícios. Ele apenas me deu a mão para que eu a pegasse, sentindo uma imensa tranqüilidade no corpo, além de uma sensação de total leveza, entreguei-me a ele, sem deixar de lado a curiosidade de saber como ele havia entrado ali e mais ainda por saber aonde ele queria me levar.

Após pegar o elevador e descer alguns lances de escadas, chegamos à entrada do edifício e ganhamos a Barata Ribeiro. Sem delongas ele pegou o caminho para a esquerda, rumo a Figueiredo de Magalhães, apesar dos meus apelos para que não o fizesse devido ser tarde da noite, os perigos eram muitos, sem contar que teria que saber a respeito dos seus pais, pois eles deviam estar desesperados a sua procura. Ele continuou andando pela Figueiredo sentido praia e eu ao seu encalço, só de bermudas e descalço em meio a uma Copacabana silenciosa, que apesar de noite, ainda mantinha o calor do dia, devido o verão que estava forte, mais uma vez, o que já estava virando uma rotina.

Ao entender a minha confusão ele retornou e novamente sorrindo, pediu que eu não me preocupasse que seu nome era Gabriel, meu anjo protetor, e que era tarefa dele me guiar para algo grandioso que seria demonstrado para mim, para que eu fosse testemunha. Pois um grande trabalho haveria de ser feito e o que seria visto serviria como base para tudo o que eu teria que fazer depois.

Gabriel me disse que ele iria me levar para que eu pudesse ver a partida daqueles que irão fazer a grande travessia, não somente a partida, mas a chegada desses viajantes ao seu local de destino, como uma forma de narrar todo esse movimento e assim, criar meios de passar as devidas palavras para os que ficavam aqui deste lado, sem ter uma idéia sequer do que acontece nesse evento solene e dessa forma, tentar amenizar a dor de cada um dos que continuarão a sua estrada neste plano.

Palavras suaves, mas que não partiam mais de uma pequena criança como eu pensava, havia muita maturidade naquelas palavras, típicas de quem já tinha milênios de vida além das vidas, na realidade eu era a criança ali naquele diálogo, só estava difícil digerir todo aquele cenário.

Nesse instante, já nas areias da praia de Copacabana, ele fez um sinal para as ondas, delas emergiu um portal, muito brilhante, em tom azul cintilante, nesse momento Gabriel se transfigurou, se tornando num homem alado de quase 2 metros, virei um anão na frente dele, ele olhou para mim e deu uma risadinha peralta para começar um diálogo comigo

- Não consigo deixar de achar graça com a cara que vocês fazem quando eu faço isso, me desculpe, mas é para o seu bem. Não poderia me apresentar na minha forma. Imagina todo mundo me vendo assim, achariam que eu era o anjo da morte trazendo nas mãos a chave do apocalipse.

- Eu também imagino a cena, realmente seria um pandemônio. Mas por que o Arcanjo Gabriel teria um assunto tão emblemático com alguém tão anônimo quanto eu?

- Você não faz idéia do poder que tem meu amigo, você já sentiu a energia fluir em você, mas por medo preferiu ignorá-la em vez de aceitá-la como um dom natural da sua essência. Mas não se preocupe com isso, trata-se de  uma reação normal, já que devido o livre arbítrio, vocês acabam tendo que achar as soluções das suas descobertas por si mesmos.

- Bem, continuo não entendendo o motivo de estar aqui, mas confio em você, se é para ser, que assim seja.

Terminado o diálogo, ele me apontou o portal e, junto a ele, entramos naquele azul cintilante sem fim. Foi uma viagem rápida e brilhante, não sentia peso nos pés, apenas o bailar do meu corpo no espaço-tempo, não havia calor e nem frio, só o silêncio e muita paz, além de uma luz forte a minha frente, que me ofuscava a vista, parecia que eu estava a voar assim como o arcanjo, que eu mal o via a minha frente.

Ao chegar do outro lado eu me senti tonto e como se tivesse tirado um peso enorme das minhas costas, tinha um ar sinistro, como um velório. Parecia Copacabana nos tempos em que o inverno chegava com toda a intensidade, deixando o mar cinzento devido as nuvens que atapetavam o céu com as sua cores em diversos tons de cinza que cobriam toda a atmosfera que nos circundava.

Gabriel pediu que eu o seguisse, antes de caminharmos, ele disse que os sintomas eram normais devido a viagem inter-dimensional que fizeram e pela gravidade do local onde estávamos ser menor do que a da Terra, quando ia começar a fazer perguntas a respeito ele apenas levantou a mão pedindo silêncio, apesar do seu gesto carinhoso, agora ele vestia uma face com um tom triste, como se estivesse acontecendo algo ruim e que ele não pudesse fazer nada, mas como assim?

O arcanjo da revelação, com a sua armadura dourada, sua espada cintilante em azul e dourado ia a frente, mal sabia como conseguia distinguir o rosto e o corpo dele, tamanha era a luz, da áurea que ele emanava de si.

Não agüentei o silêncio e o quebrei, tentando ser bem suave.

- Imagino que o que temos a frente é algo muito triste de se ver, noto pela sua cara de tristeza que há grande tribulação à frente.

- Não meu caro amigo, não se trata de tribulação. Apenas uma tristeza sem fim, de pessoas que, estão com as almas arrasadas, por algo que, se soubessem a real essência da natureza universal, não ficariam assim. Mas a humanidade escolheu o materialismo em vez dos dons dados por Deus. E não aprenderam o real poder que Javé os presenteou e que se perdeu, tendo alguns sinais fracos ainda em alguns mortais. Mas você é diferente e por isso pode compreender isso tudo.

- Sei sim, eu sou médium, consigo ter sonhos que na realidade são presságios, ver espíritos e diferenciar através da energia que sinto o que é bom e o que é ruim.

- Você chama de mediunidade um dom natural humano, como se isso fosse um fenômeno, o que não o é. Eu explicarei em outra jornada, pois chegamos ao nosso destino.

E lá estavam eles, naquele porto mal iluminado e sem vida, o choro aos cântaros marcava a despedida dos que partiriam e o desespero dos que ficavam. A tristeza de quem fica somada às incertezas dos viajantes que estavam por começar aquela viagem, tudo isso somado, dava aquele local um requinte de total caos e pavor a todos os que estavam ali.

De repente, entre o nevoeiro, aparece uma embarcação atípica, um grande navio em forma de cisne, se não fosse o cenário do momento, poderia dizer que foi uma das imagens mais lindas que já pudera ver. Não obstante, aquela embarcação tinha um objetivo, transportar os viajantes para o outro lado, de onde não poderiam retornar.
 
Sabendo disso, o clamor aumentou de ambas as partes, o tempo passava a passos largos, a partida se aproximava, a dor e total desespero reinavam naquele ambiente sem que houvesse um alento para os visitantes e viajantes daquele lugar.

Confesso que chorei, chorei de tristeza por tanto clamor, mães se despedindo dos seus filhos, os avós dos seus netos, os irmãos queridos, tios e amigos. Não há como ficar neutro diante da cena tão dolorosa que vivenciei, é frustrante não poder fazer nada.

O Grande Cisne, esse era o nome daquela colossal embarcação, confesso que não sei como o nome veio parar na minha cabeça e mais surpreendente era que eu sabia tudo a respeito, como? Como eu sabia sobre tudo aqui? Por que Gabriel me tratava como se já me conhecesse? Fiquei alguns minutos pensando naquilo tudo enquanto o Cisne começava a atracar no cais, que tinha o nome de acordo a sensação que ecoava por todo aquele lugar, o Cais da Dor, lugar de coloração acinzentada e opaca, com uma leve neblina encobrindo toda a área próxima ao atracadouro, lugar esse em que não era possível ver o sol, somente uma luz entre as nuvens, a neblina se afastava do limite da linha d’água próximo do lugar onde a embarcação atracava, a sua proa era do formato da cabeça de um cisne, o seu corpo era todo branco, fazendo uso de velas já que, ele viajava ao sabor do vento. Tudo era feito a critério daquele que comandava a embarcação.

Uma sineta tocou, dando a informação de que os viajantes teriam que embarcar. Nesse instante, a tripulação do barco, começava a separar os viajantes dos que iriam ficar e esse momento foi terrivelmente doloroso, já que os gritos de agonia e dor cortavam o ar e eram ouvidos aos quatro ventos, nunca mais vou querer ver tamanho sofrimento em minha vida, dói demais ver tudo aquilo, é como uma espada que transpassa o peito, deixando o corpo aberto aos abutres, para que façam o grande banquete, com você ainda vivo. Não desejo ao meu pior inimigo tamanha dor, pois nem os inimigos são tão cruéis o suficiente para passar por tão dolorosa provação.

Nesse momento, Gabriel veio a mim e começamos um diálogo que me deixou sem chão para pisar.

- Por que você chora?

Falei para ele da forma mais sincera e possível que as minhas emoções puderam me passar.

- Não há como não chorar diante tanta tristeza, agonia e dor, ver tal situação deixa-me com a sensação da morte em vida no peito, já que os filhos não deveriam ser separados dos seus pais.

Ele continuou.

- Mas quando os filhos viajam, a trabalho ou para se divertir, os pais deveriam chorar também.

- Não, já que, nesses casos, é uma jornada breve e, normalmente, eles retornam de tempos em tempos.

- Mas é o que acontece aqui todos os dias meu querido amigo, o fato de você não poder ver não significa que não aconteça. A você será mostrado tudo o que ocorre nessa viagem até o seu fim, onde o fim vira um novo começo. Com todas essas informações você voltará e falará a todos que o quiserem ouvir, para acalentá-los e confortá-los e por fim, propagar a mensagem. Dessa forma, todos aqueles que ouvirem a sua voz e aqueles que reproduzirem para outros, tudo o que você disser, terão dor, mas de saudade, nada como o que vemos daqui, os humanos serão mais fortes e a passagem desse evento, mais amena. Tudo o que está sendo pedido não e nada que você não saiba fazer.

- Gabriel, por favor, diga-me como pode dizer que eu sei, se eu não tenho idéia do que esta havendo de fato aqui?

- Por que a sua mente foi apagada, para a sua segurança.

- Apagada? Como? Eu já estive aqui?

- Você não acha estranho que tudo pareça, apesar de doloroso, tão natural para você?

- Confesso, realmente apesar da dor, vejo tudo não com tanta surpresa quanto esperava, agora que a mente está voltando para o lugar e a lógica dos fatos encontrando novamente o prumo, mas quando a minha mente foi apagada?

- Antes de você renascer, na realidade, as suas lembranças foram bloqueadas, quando retornar da Terra, as memórias retornam para a sua mente?

- Eu já morri?

- Sim, mais de uma vez, e sempre teve grandes evoluções em seu caminho para a Terra e retorno, até que chegou um momento em que o grande Pai disse que não precisava mais retornar, mas por amor a sua atual mãe, pai e irmãos, você pediu para retornar a terra para viver com eles mais uma vida e isto lhe foi concedido KAMAMAVE.

Não sabia mais o que pensar, até esqueci que tinha pernas ou que sabia andar, me joguei no chão, e um turbilhão de coisas veio de uma vez na minha mente, Atenas, Roma, Cairo, Londres, Rio de Janeiro, Asas...

Nesse momento, o grande arcanjo lançou a sua mão ao meu ombro e olhou-me fixamente, vi os seus olhos azuis-esverdeados ficarem iluminados como a luz do sol em um brilho ofuscante que deu lugar a uma escuridão sem fim, acabando por me fazer cair em sono profundo.
 

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Uma dor na cabeça e, ao mesmo tempo, sentido que ela estava oca. Foi assim que eu voltei do limbo, segundo o que Gabriel me falou, depois de 10 minutos desacordado.

- O que aconteceu?

- Suas memórias, elas começaram a retornar a sua mente, mas como você ainda está num corpo humano, o cérebro não suportaria a sobrecarga e você morreria, tive que intervir e bloquear o fluxo. Vamos dizer que eu reiniciei a sua CPU.

Dito isso ele deu um breve sorriso e retornou ao trabalho de coordenar um grupo de anjos a separar o grupo para a viagem, foi quando a sineta tocou duas vezes, indicando que a partida estava próxima.

Aos que ficaram, restou ir para um galpão sujo e mal iluminado, no segundo piso do Cais da Dor, onde havia uma área aberta para que se pudesse ver quem chegava e quem partia e para que pudessem assistir a partida do Grande Cisne. Alguns jovens da tripulação ficaram para dar os devidos cuidados aos mais exaltados, pela dor da perda, esses tripulantes partiriam numa jornada posterior, já que, ali naquele porto, nunca deixavam de ter viajantes.

- Gabriel, por que este lugar é tão escuro e sujo? Não deveria ser mais limpo e aconchegante?

- Mauro, todo o lugar só existe pela vontade dos homens, que materializam coisas pelo trabalho, como é na Terra. Mas aqui, essas coisas se materializam com o sentimento gerado na alma de cada um. Você já viu algum cemitério multicolorido na terra? Com certeza não, na realidade, nas ficções e em qualquer evento característico, o que vemos é cinza, preto e qualquer cor que lembre tristeza imperando no lugar. Se as pessoas soubessem o que realmente acontece no evento da passagem do corpo físico para o corpo de luz, com certeza, este lugar não seria assim.

- Mas ao falar para as pessoas que este lugar só é assim por causa dos pensamentos deles, todos irão querer vir aqui e não irão voltar de bom gosto.

- Por isso você foi o escolhido, pelo fato de saber muito bem o papel deste lugar.

- Como eu sei se eu nunca estive aqui?

Gabriel deu uma leve risada, olhou para o cais e falou sem olhar para o meu rosto.
- Você antes de retornar a Terra, era um dos anjos que ficava para dar apoio e consolo as pessoas que ficavam exauridas pela dor da perda, a sua forma de amor que você passava para elas, as acalmava a ponto de dormirem e retornarem para o seu corpo físico, você também bloqueava parcialmente o que essas pessoas viam aqui, por fim, elas achavam que tinham tido um sonho da partida do seu ente querido, quando na realidade, devido o poder da mediunidade, eles estiveram aqui pessoalmente, apenas não em seu corpo físico.

- Por que me chamou de KAMAMAVE?

- Quando Javé lhe concedeu o direito de não mais retornar a Terra, você foi batizado definitivamente, com um nome que só você e o seu anjo guardião, além Dele próprio poderão saber, KAMAMAVE e a sigla do seu nome meu fiel e jovem Arcanjo Kaio Maurus Maximus Verissimus, KAMAMAVE!

- Então quando tive aquele sonho com luzes reluzentes viajando por uma área de relevo de vegetação sem folhas, e que vi uma sombra negra tentando se aproximar daquelas luzes foi verdade? E que elas representavam pessoas?

- Sim, um demônio quis roubar as almas que estavam fazendo a travessia do mundo sombrio para o céu, pois conseguiram, depois dos pecados expiados, a misericórdia do grande Pai. Para cada alma recuperada, o céu se fortalece e o inferno enfraquece, é lógico que o anjo caído não deixará isso barata e irá tentar a alma que esta sendo salva a ter uma recaída e voltar para o mundo sombrio, naquele tempo você era um dos guardiões que foram até lá para guardar a passagem deles, quando você viu o demônio, você gritou o nome de Jesus tão alto que não só o demônio fugiu como a sua áurea de luz queimou tudo num raio de 50 metros de onde você estava. Como você ainda era muito jovem como anjo guardião, você desmaiou e eu fui ao seu encalço. Demorou 200 anos terrestres para você acordar o que para nós, passou em 1ano. O tempo lá passa muito mais rápido do que aqui, a mando do grande Criador, pois Ele não quer ficar muito tempo longe dos Seus filhos.

- A partir daí fiquei te chamando de bombinha.

Demos uma gargalhada, mas eu ainda estava espantado com tanta coisa nova que foi falada para mim e que eu não fazia idéia que era de fato um acontecimento ocorrido em minha vida. Aproveitando o ensejo falei de outro sonho que também é fixo na minha cabeça, mas antes de falar, Gabriel se adiantou.

- Sei o que você quer perguntar, aquilo foi o seu teste de aprovação, você tinha que provar que conseguia sentir o amor de Deus. E por isso, você andou por aquelas terras sem vida de montanhas e neve por mais de 10 anos, até achar a cidade, uma das cidades bases de Passagem, que existem em uma das regiões do Édem.

- E aquele anel de Rubi? 

- Foi o meu presente para lhe dar boa sorte, pois sabia que, se precisasse, ele lhe ajudaria.

- Eu lembro agora, a cidade parecia ser Chinesa, até pensei na lendária Shangri-lá quando acordei. Lembro da única via de paralelepípedo que ela tinha e que levava a praça central, também me lembro da senhora que me ofereceu arroz branco japonês, que eles chamam de Gohan e outro senhor que, mais a frente, me ofereceu nira, broto de alho. Quando cheguei à praça central, lembro do templo que havia do outro lado, a minha esquerda, e do mesmo senhor que havia me dado o nira, só que ele tinha os olhos vermelhos e, com uma espada me partiu em dois, foi quando uma luz vermelha ofuscante saiu do anel de rubi, que cobriu o meu corpo e me regenerou, quando percebi, aquele senhor tinha dado ordem para inúmeros guerreiros me matarem, eu vi por várias vezes o meu corpo em pedaços, sem poder fazer nada, no entanto o anel que você me deu, sempre me regenerava. Nesse momento, aquele ser se transformou numa besta enorme e me atacou pelo alto, quando então me transfigurei naqueles antigos guerreiros Mogóis e, com uma espada, dilacerei a besta nos céus e em vários pedaços. Nesse momento, vi uma luz dentro do templo, quando me vi, estava dentro dele. Tinha uma grande porta marrom escuro, dois pedestais de madeira com locais para que tochas fossem acesas e uma sala velha, encardida e muito escura. Lembro que pensei, "Graças a Deus", e então tudo se transfigurou, o salão ficou brilhante, num branco que jamais havia visto, quando olhei para a porta, vi um imenso lençol, com uma pessoa do outro lado, eu só conseguia ver os pés. 

- Me joguei ao chão, pois mesmo sem ter visto o rosto, sabia que era Ele que estava do outro lado daquela cortina, e que ela estava ali para me proteger da áurea Dele, pois eu não estava preparado ainda para ver, frente a frente, o grande Pai!

Gabriel mais uma vez colocou as mãos em meus ombros, pois viu que a emoções já estavam fortes o suficiente para que o turbilhão de memórias viesse novamente a regressa de uma vez a minha mente.

- Relaxe meu querido amigo, aquilo não foi um sonho, foi real, você travou aquela batalha contra um demônio muito poderoso e não foi o anel de rubi que te salvou, foi o seu amor pela paz, pelo amor e pela simplicidade, sinônimos do grande Pai, que o regeneraram, a luz vermelha no anel era a sua própria áurea agindo no seu corpo, e realmente, só os querubins tem o poder de ver o Pai face a face, nos arcanjos somos os guardiões dos mundos, os serafins os guardiões dos templos e os querubins são aqueles que contemplam a face do Pai, por serem os mais antigos.

Nesse momento três toques da sineta se ouviram, o grande barco começava a desatracar, num instante Gabriel nos tele-transportou para a proa da embarcação, quando vi o timoneiro dar a ordem para que as velas fossem soltas e, mesmo sem vento algum, senti que o Cisne começava a se locomover, os gritos podiam ser ouvidos em alto e bom tom, de ambas as partes, não havia o que fazer, a não ser ver tudo aquilo e rezar por todos, mas uma pergunta me pegou de assalto, para onde nós iremos? Como será?

Olhei para o lado e percebi que o meu guardião não estava mais ali e em lugar algum que eu tenha pousado os olhos.

Perdido em pensamentos, vi a embarcação entrar no nevoeiro denso, perdi a noção da direção já que não se via mais do que alguns metros, seja para qualquer lugar que eu me virasse. Os viajantes estavam cansados de tanto chorar, outros nem mais conseguiam gritar de tão exaustos, mas a pergunta que eu tinha feito para mim mesmo minutos antes, agora já era a pergunta de todos os demais, sobre qual era o destino daquela viagem. No meu caso, eu já sabia, só iria relembrar. Só Deus mesmo para fazer uma reviravolta em nossas vidas. De um ser anônimo e sem causa, agora sou um arcanjo guardião dos humanos, pelo menos agora entendo a minha adoração por crianças. E minha necessidade de protegê-los

Algum tempo de total silêncio imperou na embarcação, minha mente me turbinava creio que o meu corpo estava a mais de 50ºC de tantas coisas que vinham e voltavam, mas antes do tele-transporte, Gabriel havia me falado que quando sentisse o turbilhão novamente, que pensasse no grande Pai que tudo se acalmaria, e dava muito certo, pois não tirava a minha cabeça Dele.

Enquanto assimilava tudo o que tinha ouvido percebi uma forma de luz ficar a cada instante mais forte e envolvente, quando finalmente, saímos do nevoeiro e nos deparamos com o mar aberto, o sol a pino e várias gaivotas voando ao redor da embarcação, o brilho do Cisne Branco era vibrante, um branco como eu jamais tinha visto, chegava a ofuscar a visão a ponto de ter dificuldade de ver os golfinhos indicando o caminho a seguir, cenário interessante, que diminuiu a sensação de tristeza dos embarcados, não sei quanto tempo passamos naquela situação, só sei que tudo o que vi era muito lindo.

 

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Passados alguns momentos, não sei bem quanto, o Grande Cisne fez soar uma trombeta, num som bem estridente, totalmente diferente do som triste que havia ouvido no Cais da Dor, agora fazia com que meu corpo entrasse em choque, como se tivesse sentindo a vibração da energia divinal no meu corpo.

Quando voltei a minha atenção para a parte central da embarcação, vi um alvoroço por parte de todos, os viajantes notaram que, bem distante, eles podiam avistar uma extensa faixa de terra de proporções continentais, mas não se distinguia muito, pois a distância ainda era muito grande, a curiosidade venceu a tristeza dos que ali estavam comigo naquela viagem.

E a terra se aproximava, lentamente, aumentado à curiosidade daqueles que vinham de um cenário de total caos e lágrimas.

Então o timoneiro fez soar novamente a trombeta, só que por duas vezes, num dos sons mais lindos que eu já pudera ter ouvido, tão logo a trombeta parou de soar, começaram a explodir fogos de artifícios naquele continente, todos voltaram os olhos para assistir aquele espetáculo, por mais que fosse dia, era possível ver os desenhos no céu, os mais diversos, que faziam com que todos olhassem para o alto e esquecessem, por um instante, da terra que estava se aproximando.

Quando os fogos terminaram, o barco já estava a reduzir a velocidade, tudo estava próximo e o mais incrível é que era possível ver casas, ruas, praças e o mais espetacular, pessoas! Era possível ver pessoas naquela cidade! Que era muito linda e muito parecida com a cidade de Petrópolis na região serrana do Rio de Janeiro, tudo limpo, lindo de se ver, cada construção no seu lugar e em perfeita harmonia com o que estava a sua volta, um verde sem fim, bordado com flores de todas as cores, como se nós estivéssemos chegando..., chegando ao paraíso!

Quando o barco atracou e os embarcados puderam sair, Gabriel retornou para o meu lado e pediu que eu também fosse até o porto, ele iria me deixar por alguns instantes, mas eu seria assessorado por alguém que estava a minha espera para me guiar no que era para ser visto por mim. Perguntei quem seria o meu guia, com um riso ele falou que era surpresa. Dizendo isso ele se desmaterializou, indo para o céu em um feixe de luz, onde outro portal se abriu para que ele o atravessasse.

Quando voltei o meu olhar para o porto, percebi que os viajantes estavam em grande festa, com altos brados de alegrias, choros e risadas, já estavam no roll antes da entrada da cidade. O que me deixou com uma felicidade imensa é que eles finalmente descobriram que aquelas pessoas que naquela cidade estavam, se encontravam ali naquele porto por causa deles, os viajantes, pois estavam a esperá-los, confesso que nunca senti tanta alegria em minha vida, novamente chorei de emoção, uma linda emoção, em ver que as pessoas que aguardavam os viajantes naquele lindo roll do porto, lindo e cheio de cores cintilantes, totalmente o oposto do local onde a jornada começou, nada mais eram do que os parentes!

Sim, pais, filhos, irmãos, avós, todos os que já tinham feito a viagem antes deles e que estavam ali para aguardá-los, ansiosos pelo reencontro, jamais pude imaginar tal cenário, de tão alegre e emocionado que fiquei com a alegria deles que, comecei a chorar de tristeza, pois me lembrei do meu irmão, o meu caçulinha, que era 11 anos mais novo do que eu, que fez essa travessia em maio de 2009, no dia das mães. Fiquei alegre por todos, mas estava arrasado por dentro, inocentemente eu o procurei na multidão, mas não o vi. Baixei a cabeça para que ninguém percebesse as lágrimas no meu rosto e agradeci a Deus pelo que via e pelo final feliz dos viajantes ao reverem as suas famílias quando, nas minhas costas, escutei uma voz família.

- Isso acontece todo dia! Seu topeira!
                                                                                            
- Tampinha?! Você?!

Sem perceber, eu estava agarrado a ele, meu irmãozinho, num gesto impensado de saudade e amor que jamais imaginaria experimentar. Ter meu irmão ali, comigo, naquele lugar lindo, era algo que jamais pudera ter como real. Tanta alegria, tantas lágrimas de uma emoção bela, que deveria ser compartilhados com todas as pessoas do mundo.

- Que saudade meu querido, você partiu sem que eu pudesse dizer nada.

- Tinha tanto a dizer, nunca fui o teu irmão de fato, nunca te protegi, nunca te dei prova do meu amor, apenas competia sem te dar espaço e quando você se tornou adulto, sempre convivi com você em forma de competição, nunca te dei um abraço, um beijo, um carinho sequer e nunca tive tempo o suficiente para expressar tudo o que sentia. Quando você se foi, uma parte de mim morreu com você, sou um morto vivo e sem destino naquele mundo que você deixou para trás, a vida não é igual, nada é igual, o buraco que lá ficou nos faz sangrar de dor e agonia todos os dias depois da sua partida.

- Tudo bem, seu topeira, fica calmo ou sua pressão vai subir e você fica aqui de vez.

Ele deu uma risada característica dele e continuou.

- Acha que eu não sabia que você me amava? Quantas vezes você tomou as minhas dores como se fossem suas? Você se esqueceu do Playstation que compramos juntos? Parecíamos duas crianças, você mais do que eu. Do dia em que você me levou no Tivoly Park, na Lagoa Rodrigo de Freitas? Dos filmes que víamos no cinema? E de tantas vezes que você se calou diante as nossas discuções? Mesmo você estando certo? Só para não me desapontar? Das incontáveis vezes que você me fazia vergonha, quando falava aos meus amigos que tinha me carregado no colo com 3 dias de vida e trocado as minhas fraldas? Até apelido de fraldinha eu levei. Das vezes que você tomou  as minhas dores como se fossem suas. Acha que eu não percebi que você tratava o Adriano, nosso sobrinho, como forma de dar a ele o que você não soube dar para mim? O que é isso senão uma grande e verdadeira prova de amor?

- Saiba que eu estive e estou contigo por todo esse santo tempo, ao chegar aqui, fui recebido pelo Vovô Luis e pelo Vovô Doroteu, eles me ajudaram nos meus primeiros dias aqui além do anjo Rafael, meu guardião. Gabriel bloqueou a sua mente para que você não pudesse pressentir a minha partida, devido a sua essência superprotetora, só a nossa mãe e irmã puderam ter o presságio e a chance de se despedirem no Cais da Dor e ver a minha partida.

- Eu nunca deixei de estar do seu lado, mesmo nos momentos mais difíceis, rezei muito quando você pensou em se matar, andando por aquelas ruas obscuras da Praça XV, eu também estava lá, pois sentia a sua dor e a sua culpa, as fiz também como se fossem minhas. Estive do seu lado até quando você recomeçou a andar e voltar a viver, naqueles momentos em que nos encontrávamos em sonhos e você dizia que não era para eu olhar para trás, aquela dor era normal, que eu ficasse com os nossos que já se foram antes e que ajudasse aos que chegassem onde eu estava, para que conseguissem achar conforto e o novo caminho, vi que você, apesar da dor, já estava restaurado, conforme Gabriel havia me falado, seu arcanjo topeira! 

- Mais uma gargalhada típica dele!

- Daí comecei a cuidar dos nossos pais e da nossa irmã.  Você nunca esteve sozinho. Hoje estou aqui para que possa rever você, pois você precisava desabafar este amor incontido para que a sua alma ficasse pura para assimilar tudo o que você está vivenciando nesse momento, e que você também pudesse liberar a sua áurea de arcanjo, para que você possa voltar e ajudar todas aquelas pessoas do outro lado, que não tiveram o privilégio que você teve de poder ver todo esse continente totalmente ignorado pelo povo que vive no planeta Terra.

- Tampinha, isso que eu estou passando não é um sonho? Eu me lembro de estar na minha cama e ver o Gabriel do meu lado pedindo que eu o seguisse. A mesma criança que havia estado comigo na praça. Naquele momento eu estava pensando exatamente em como seria essa travessia entre esses dois mundos, daí estou aqui agora. Como diferenciar a realidade do sonho?

- Você terá os sinais necessários para que você possa compreender e acreditar em todos os acontecimentos que você está presenciando aqui, infelizmente terá que guardar isso com você por toda a sua vida terrena, com a sua áurea livre, terá um diálogo mais sólido e um olhar mais sereno para com as pessoas que se encontrarem no luto, e dará o conforto para que elas possam continuar vivendo e sendo felizes até que o dia delas chegue também.

- Eu poderei entrar na cidade?

- Por enquanto não sua anta, mesmo por que você já esteve aqui de passagem e a serviço de Gabriel, esqueceu o que ele te falou?

- Não, não, mas pelo menos fui promovido de topeira para anta!

Era muito bom, novamente, dar gargalhadas com o meu irmão, mas sem perder tempo, pois já estava curto, ele continuou o diálogo

- Tudo o que você precisa ver já lhe foi mostrado, que era a viagem e o que acontecia quando todos chegam até aqui, morra primeiro e você verá lá dentro.

- Você não perde a oportunidade de tirar onda com a minha cara.

- Isso é o que sinto mais falta.

Demos outra sonora gargalhada e continuamos o diálogo.

- Como é o nome desse lugar tão lindo, tampinha?

- Passagem

- Que nome estranho para se dar para uma cidade tão linda!

- Acontece que você apenas está vendo os portões desse mega continente que é este lugar, há por aqui muitas outras cidades e lugarejos, onde todos vivem com base na paz, no amor e na simplicidade, princípios esses divinais. Também vivemos com base na honestidade, franqueza e sinceridade uns para com os outros e vivemos familiarmente com base na fraternidade, na fidelidade e na fertilidade. Detalhe, minha esposa manda um abraço para você e... Você já é tio, dei o seu nome ao meu filho, em homenagem a você.

- Quer dizer que vocês podem ter filhos aqui?

- Sim, claro que sim, e muitos deles fazem a viagem até a Terra, para vivenciar uma vida como nós fizemos, outros ficam por aqui mesmo, só que, para conhecer as outras cidades, de níveis mais elevados de conhecimento do espaço-tempo e que existem nesse mega mundo, temos que ficar fazendo essas viagens de ida e volta, para adquirir mais e mais conhecimento e ajudarmos aos nossos irmãos que se perderam ao longo do caminho ou estão com dificuldades para reencontrá-lo. No meu caso, por enquanto fico por aqui em Passagem, primeiro porque vi muita turbulência na vida de vocês e isso me prejudicou um pouco, eu queria ajudar e não sabia. Com a ajuda dos meus Avôs e de Rafael eu superei esta situação e, com os nossos contatos através dos sonhos e das orações da Iara e da Mamãe, vi que estava tudo ficando bem, só o nosso pai que continua perdido, tenha paciência com ele, é um espírito novo e terá que fazer muitas viagens a Terra para conseguir o conhecimento que temos hoje meu irmão, nesse caso, nós é que somos os Avôs dele. Então a minha luta por vocês aqui de Passagem ficou na base das orações que me ensinaram e da geração de energia do meu corpo para purificar os pensamentos de vocês. Por fim, eu reencontrei a minha alma gêmea, mulher que é a essência da minha existência, ela me deu um filho que leva o seu nome, detalhe, o Maurinho é tão peralta e topeira quanto você, eu o chamo de toperinha.

- Essência e existência são palavras minhas seu prego!

- Há!Há!Há!... Eu sei!

- Há!Há!Há!... Tampinha, você não muda!

Nisso a gente deu uma agarrada um no outro e começamos a fazer cócegas até que alguém pedisse penico. Como sempre, dei o braço a torcer.

- Você não tem vergonha de vencer um novato?

- Você? Novato? Onde existe por aí um novato de 6523 anos terrestres? As nossas idades juntas somam mais do que o período do descobrimento da escrita!

- Há dá um desconto!

- Dou não, e você vá andando atrás de uma namorada, pois eu quero mais um sobrinho. Sua alma gêmea está a sua procura, canalize o seu pensamento que você a irá encontrar.

- Me pede algo mais fácil.

Mais gargalhadas.

Passamos muito tempo juntos, na entrada da cidade, contando momentos da nossa história, quando juntos, no planeta Terra, empreendemos a nossa jornada. Não sei quanto tempo passei naquele lugar sagrado com meu irmãozinho, sei apenas que desejava não mais voltar.

Gabriel, percebendo a minha intenção, veio ao meu encontro, dizendo que já era tempo de retornar ao barco, pois eles precisavam retornar, e eu já estava a muito tempo fora do corpo físico. E já havia um novo grupo esperando pelo Cisne no Cais da Dor, pessoas essas que também passariam pela mesma experiência que foram relembradas em minha mente.

Foi difícil me despedir do meu irmão, sabendo que eu não o veria tão cedo.  Dei um forte abraço nele e as lágrimas voltaram a cair.

- Não retorne para a Terra antes que eu volte a colocar os meus pés em Passagem Tampinha.

- Não preciso mais voltar, já evolui o suficiente, assim como você, mas ainda não fiz o teste, pois o grande Pai não vê que o meu momento chegou, mas por agora foi concedido a mim, poder ir para as outras cidades daqui, conhecer algumas, mas sempre voltar para Passagem ao final do ciclo, que é o que para o pessoal da Terra, corresponderia a 1 mês. Só que, o nosso mês aqui, demora 10 anos para vocês na Terra.

- E existem outros lugares como este?

- Sim, não apenas neste continente, mas em outras dimensões também, tudo está em eterna evolução, temos que evoluir com eles, e ficar estático também serve para evoluir, somos muito unidos e nossas passagens sempre são em conjunto. Por isso eu esperarei. Até breve irmão.

- Até breve... Tampinha...

Dei um forte abraço em Daniel, Gabriel veio para mostrar a mim o mapa da cidade e os jardins que ficavam na entrada, além do selo que ficava cravado no chão do cais, onde os viajantes colocavam os seu pés pela primeira vez naquela terra firme. As flores das quatro estações conhecidas na Terra estavam por todos os lugares, quando olhei novamente para a minha frente Daniel já tinha se retirado e não havia mais ninguém fora dos portões, que já estavam fechados, entendi que tudo aquilo foi feito para facilitar o meu retorno.

Seguindo Gabriel, retornei ao Grande Cisne para a viagem de retorno, quando ele me beijou os dois olhos e disse suavemente.

- Agora durma minha criança, em breve no veremos novamente e em definitivo. Boa noite.

Senti um lapso no tempo e no espaço, quando me vi novamente já estava em meu apartamento, deitado na minha cama. A acordar de um sono profundo, parecia que estava com as minhas energias totalmente descarregadas. O dia já tinha amanhecido, mas ainda era cedo para me arrumar para o trabalho, pude novamente ouvir os sons turbulentos da cidade que acordava junto comigo para mais um dia de luta, em mais um dia normal e barulhento do cotidiano diário da zona urbana do meu Rio de Janeiro, e eu querendo dormir novamente, de tão cansado que estava. 

Sentei-me na cama e pensei se tudo o que tinha acontecido teria sido verdade, e isso venceu o meu cansaço, ou se tinha sido um mero e profundo sonho, somado as conhecidências do dia anterior.

Fiquei um longo tempo na cama a pensar sobre tudo o que tinha passado e vivenciado, quando percebi uma ave tentando entrar pela janela do quarto.

No momento em que fui até a janela, no intuito de abri-la, o pássaro se assustou e foi embora, depois que abri a janela, vi que era um pardal, imaginei que ele queria fazer um ninho em cima do guarda-roupa, nesse momento, eu abaixei a cabeça e me deparei com um pequeno selo, que estava na base externa da janela, para o meu espanto o símbolo que estava impresso naquele pedaço de papel, era o mesmo que Gabriel me mostrou na entrada da cidade de Passagem, no chão do cais.

Por um momento, creio eu, o mundo parou. Quando consegui reorganizar tudo na minha cabeça e recomeçar a raciocinar, com o selo na mão, comecei a escrever tudo o que vi, para publicar e enviar para o máximo de pessoas que pudessem me encontrar ou encontrar o manuscrito.

Não sei até que ponto poderemos saber sobre o que acontece em nossas vidas, o que se passa depois, ou antes, delas. E sequer o que nos é revelado enquanto estamos aqui neste plano. Com certeza, e isso é fato, não estamos sozinhos neste universo, mesmo estando separados por dimensões imensuráveis, que fogem totalmente da nossa compreensão, podemos dizer que somos vigiados por seres cujo conhecimento é muito mais amplo que o nosso. Eles nos guiam, eles nos orientam, eles nos acompanham não apenas em nossa jornada, mas travessia, principalmente na travessia, todos sendo levados constantemente pelo Grande Cisne Branco. 

Decidi viver a minha vida normalmente, aguardando pelo chamado, que irei atender sem titubear. Peço que vocês estejam de prontidão também, pois os sinais estão acontecendo, uma grande escuridão está por nos cobrir e a humanidade pode estar no crepúsculo da sua existência.

Tenham fé e sejam fortes, nunca vejam a vida como a que vemos no Cais da Dor, ele é apenas o início de uma viagem, um retorno a origem. Vejam a vida por aqueles que nos esperam do outro lado, na cidade de Passagem, que sejamos fortes para não se perder no caminho, e que venhamos a defender a todos a nossa volta, pois além de ser um humano ao seu lado, também é o seu irmão e, família nasceu para se defender.

Que o Grande Cisne e Gabriel estejam conosco!
Mauro Veríssimo
Enviado por Mauro Veríssimo em 26/06/2010
Alterado em 22/08/2017

Música: The Voices Of Solaris - Solaris

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