Mauro Veríssimo
"Não posso dizer o que não sei, mas posso dizer que a amo intensamente. Minha vida, a ti pertence."
Textos

 

 

Passagem — O Grande Cisne Branco


A Criança da Praça do Lido

Como deve ser a nossa passagem?

Confesso: não faço ideia.

A vida costuma nos mostrar seu lado mais monótono, talvez porque esconda de nossos olhos o verdadeiro teor de sua essência: a brevidade da nossa existência. Mas deixemos a vida de lado por um instante. Falemos da passagem. Como ela deve ser?

Pensei nisso durante muito tempo.

Em um dia de folga, fui à Praça do Lido, no coração de Copacabana, observar a vida ao meu redor. Crianças corriam entre os brinquedos, subiam onde não deviam e se lançavam de alturas que me pareciam perigosas. Perguntei-me como não se arrebentavam no chão. Depois ri de mim mesmo: quando criança, eu havia feito coisas muito piores.

Enquanto pensava, um menino se aproximou. Parou a poucos passos do banco e ficou me olhando com a curiosidade franca que somente as crianças possuem.

— Quando morremos, um barco nos leva para outro lugar — afirmou.

Não perguntou se eu acreditava. Falou como quem conhecia um fato simples, tão evidente quanto o mar diante de nós.

Surpreso, sorri e respondi que talvez tudo não passasse de um sonho que temos quando dormimos. Ele riu de mim e correu de volta para o parquinho.

A afirmação, contudo, permaneceu em minha cabeça. Como uma criança teria chegado àquela ideia sobre a vida além do túmulo? Talvez seus pais fossem religiosos. Talvez alguém da família tivesse morrido e eles houvessem inventado aquela travessia para amenizar a dor do menino.

Ri comigo mesmo. Quando meu irmão morreu, não vi navio algum — nem sequer um barquinho de papel.

Logo empurrei o assunto para o fundo da mente. A vida já era complicada demais: trabalho, trânsito, faculdade e o estresse de todos os dias. Havia problemas concretos em quantidade suficiente para que eu não perdesse tempo com fantasias.

Passava das oito da noite quando decidi voltar para casa. Eu já sonhava com a cama confortável, a televisão ligada em algum programa científico e um copo d’água sobre a mesa de cabeceira. Depois de um dia cansativo, tudo o que queria era dormir.

Meu apartamento ficava na cobertura do edifício Remanso, na Rua Barata Ribeiro. Dali, eu podia contemplar o Corcovado e o Pão de Açúcar. Permaneci algum tempo diante da paisagem, sentindo a cidade respirar, mas a frase do menino voltou a me inquietar.

Um barco nos leva para outro lugar.

Por volta das onze, fui para o quarto. Deitei-me, acompanhado apenas pela minha solidão e por uma pergunta absurda: do outro lado, será que eu teria asas?

Sorri da própria imaginação e estendi a mão para pegar o copo d’água. Foi então que percebi alguém ao lado da cama.

Era o menino da praça.

Sorria como se sua presença ali fosse a coisa mais natural do mundo.

— Venha comigo — pediu.

O susto acelerou meu coração, mas havia no olhar dele uma serenidade que eu jamais experimentara. Minha apreensão cedeu lugar a uma paz inexplicável.

— Como você entrou aqui?

Ele não respondeu. Apenas estendeu a mão.

E eu a segurei.
 

Gabriel

Saímos do apartamento, descemos pelo elevador e ganhamos a Rua Barata Ribeiro. O menino virou à esquerda, em direção à Rua Figueiredo de Magalhães.

Tentei detê-lo. Era tarde, e uma criança não deveria andar sozinha por Copacabana. Seus pais certamente estariam desesperados. Ele, porém, continuou em direção à praia, e eu o segui de bermuda e descalço pela cidade ainda aquecida pelo verão.

Ao perceber minha aflição, parou e tornou a sorrir.

— Não se preocupe. Meu nome é Gabriel. Sou seu guardião.

Pensei que fosse mais uma brincadeira, mas sua voz já não parecia a de uma criança.

— Você foi escolhido para testemunhar uma viagem — continuou. — Verá a partida daqueles que morreram e também a chegada ao outro lado. Depois, deverá contar o que viu aos que permanecerem na Terra. Sua palavra poderá amenizar a dor deles.

Fiquei em silêncio. Havia séculos naquela voz infantil. Naquele momento, a criança era eu.

Chegamos à areia de Copacabana. Gabriel ergueu uma das mãos em direção ao oceano. As ondas recuaram e, sobre a água, abriu-se um portal azul, brilhante como uma estrela refletida no mar.

Então o menino se transfigurou.

Diante de mim surgiu um homem alado de quase três metros de altura. Vestia uma armadura dourada, e uma luz azul percorria o gume de sua espada. Comparado a ele, eu me sentia minúsculo.

Gabriel riu da minha expressão.

— Vocês sempre fazem essa cara. Não poderia aparecer assim no meio da praça. Pensariam que eu era o anjo da morte trazendo a chave do apocalipse.

— Eu também pensaria — respondi, tentando recuperar o fôlego. — Mas por que o arcanjo Gabriel teria interesse em alguém tão anônimo quanto eu?

— Você desconhece o poder que carrega. Já sentiu essa energia, mas teve medo de aceitá-la. Não se preocupe: o livre-arbítrio exige que cada pessoa encontre suas respostas e escolha o próprio caminho.

Eu ainda não compreendia, mas confiava nele.

— Se é para ser, que assim seja.

Entramos no portal.

Meu corpo perdeu o peso. Não havia frio nem calor, apenas silêncio, paz e uma luz que crescia à nossa frente. Eu não caminhava nem voava: parecia bailar no espaço entre um instante e outro.

Quando alcancei o outro lado, senti uma tontura intensa, seguida da impressão de que um peso antigo havia sido retirado de minhas costas.

O lugar, contudo, era sombrio.

O mar tinha a cor do inverno. Nuvens de diferentes tons de cinza cobriam o céu, e uma neblina espessa ocultava o horizonte. O ambiente lembrava um velório interminável.

Gabriel pediu que eu o seguisse. Explicou que a vertigem era consequência da travessia e da diferença entre aquele plano e a Terra. Quando tentei fazer outras perguntas, ele ergueu a mão, pedindo silêncio.

Seu rosto agora estava triste.

— Há alguma tribulação à nossa frente? — perguntei.

— Não uma tribulação, mas a dor de quem acredita que a morte é o fim. Se os humanos compreendessem a passagem, este lugar não seria tão sombrio.

Avançamos pela névoa.

Logo ouvi o choro.


O Cais da Dor

O porto era mal iluminado. De um lado, estavam aqueles que partiriam; do outro, familiares e amigos que haviam vindo se despedir. Anjos de aparência humana caminhavam entre eles, orientando os viajantes e amparando os que mal conseguiam permanecer de pé.

Mães abraçavam filhos. Avós tocavam o rosto dos netos como se tentassem memorizar cada detalhe. Irmãos se agarravam uns aos outros. Ninguém sabia quando voltaria a se encontrar.

Chorei.

Não havia como permanecer neutro diante daquela cena. Eu desejava fazer alguma coisa, mas não conhecia palavra ou gesto capaz de deter tamanho sofrimento.

Foi então que uma forma branca surgiu entre a neblina.

A princípio, parecia um santuário flutuante. Depois distingui a proa moldada como a cabeça de um cisne, o casco luminoso e as grandes velas recolhidas. Era uma das imagens mais belas que eu já vira e, ao mesmo tempo, uma das mais solenes.

O nome apareceu em minha mente antes que alguém o pronunciasse:

**O Grande Cisne Branco**

Como eu poderia saber?

A embarcação aproximou-se lentamente do cais. O comandante permanecia junto ao leme, mas ninguém conseguia contemplar seu rosto. Uma luz intensa emanava de seu corpo. Apesar disso, sua presença transmitia tamanha paz que, por alguns instantes, o medo pareceu recuar.

O lugar se chamava Cais da Dor. Também isso eu sabia sem que Gabriel me contasse.

A neblina, as paredes acinzentadas e a ausência do sol pareciam nascer da própria tristeza dos que ali estavam.

Uma trombeta anunciou o início do embarque.

Os anjos começaram a separar viajantes e visitantes. O ar foi cortado por gritos. Mãos se soltaram à força. Algumas pessoas tentaram seguir aqueles que partiam, mas foram amparadas antes de alcançar a embarcação.

Gabriel se aproximou.

— Por que você chora?

— Como não chorar diante de tanta dor? Filhos não deveriam ser separados dos pais, nem pais de seus filhos.

— Quando alguém viaja a trabalho ou por diversão, a família também se desespera dessa maneira?

— Não. Essas viagens são breves. Sabemos que haverá retorno.

— É o que acontece aqui todos os dias, meu amigo. O fato de os vivos não poderem ver não significa que o reencontro não exista. Você acompanhará esta viagem até o fim. Depois retornará à Terra e contará o que presenciou. A saudade permanecerá, mas talvez o desespero seja menor.

— Como pode afirmar que sei cumprir essa missão, se não compreendo o que está acontecendo?

— Porque suas lembranças foram bloqueadas para sua proteção.

Olhei novamente para o navio. Tudo era extraordinário, mas também estranhamente familiar.

— Eu já estive aqui?

— Muitas vezes. Antes de nascer, suas memórias foram adormecidas. É assim com todos. Ao deixar definitivamente o corpo físico, você se lembrará.

— Então eu já morri?

— Mais de uma vez. Viveu muitas jornadas na Terra e aprendeu com cada uma delas. Quando já não precisava retornar, pediu mais uma vida por amor à sua família.

As palavras abriram uma porta dentro de mim.

Imagens surgiram em sucessão: Ur, Babilônia, Jerusalém, Atenas, Roma, Cairo, Londres, Rio de Janeiro. Vi templos, desertos, batalhas, asas e cidades que não reconhecia. Minha cabeça latejou. Caí de joelhos e gritei.

Gabriel pousou a mão em meu ombro. Seus olhos azul-esverdeados brilharam como o sol.

Depois, tudo escureceu.

Faísca

Despertei com uma dor intensa na cabeça e a sensação de que minha mente estava vazia.

— O que aconteceu?

— Suas lembranças tentaram retornar de uma só vez — explicou Gabriel. — Você ainda está ligado ao corpo físico, que não suportaria tamanha sobrecarga. Interrompi o fluxo antes que sofresse consequências graves.

Ao longe, dois toques de trombeta anunciaram que a partida se aproximava. Gabriel coordenou o embarque enquanto os visitantes eram conduzidos a uma galeria de onde poderiam ver o navio partir.

Observei as paredes escuras do cais.

— Por que este lugar é tão triste? Não deveria ser acolhedor?

— Na Terra, as coisas são construídas pelo trabalho das mãos. Aqui, também são moldadas pelos sentimentos. Você já viu um cemitério alegre e multicolorido? O Cais da Dor existe assim porque recebe o medo, a culpa e o desespero daqueles que chegam. Se os humanos compreendessem a passagem, este lugar se transformaria.

— E por que fui escolhido?

Gabriel olhou para a galeria antes de responder.

— Porque você já trabalhou aqui. Antes de suas jornadas terrenas, era um dos jovens anjos que consolavam os visitantes. Seu amor os acalmava e lhes devolvia forças para despertar. A maioria não se lembrava do cais; pensava ter sonhado com a despedida de alguém querido.

— Qual era meu nome?

— Há um nome que pertence somente a você, ao seu guardião e ao Grande Pai. Seu nome de jornada era Kaio Maurus Maximus Verissimus. Nós o chamávamos de Kamamave, da linhagem de Kamael.

Uma lembrança quase rompeu novamente o bloqueio. Vi esferas luminosas atravessando uma paisagem sem vida. Uma sombra se aproximava, tentando desviá-las do caminho. Eu me lembrava de ter gritado o nome de Javé e liberado uma luz tão intensa que tudo desaparecera ao meu redor.

— Aquilo aconteceu? — perguntei.

— Sim. Você protegeu almas que deixavam uma região sombria em direção a um lugar de renovação. Sua energia afastou a criatura, mas também o consumiu. Foi por causa daquela explosão de luz que passei a chamá-lo de Faísca.

Gabriel sorriu, e eu não pude evitar uma risada.

Outra recordação surgiu: uma cidade de aspecto oriental, cercada por montanhas e neve; uma estrada de pedras; uma senhora que me oferecia arroz; um velho que me entregava brotos de alho. Depois, monstros, uma espada e um anel de rubi brilhando em minha mão.
 

— O seu rito de passagem, sua provação. Você lutou contra um espírito muito antigo e maligno que tentava corromper a sua luz. Você o venceu e, com isso, pôde ver Jesus. Para a sua proteção, ele teceu uma cortina para que a aura dele não consumisse você. No entanto, ele deixou uma brecha junto ao chão. Dessa forma, você conseguia ver os pés dele.

 

Antes que as imagens me dominassem, Gabriel tocou meu ombro.

— Essas lembranças pertencem a outras jornadas. Não precisa revivê-las agora. O que importa é aquilo que aprendeu: nenhuma arma o salvou. Foi sua confiança no amor, na paz e na simplicidade que o manteve de pé.

Respirei profundamente. As imagens recuaram.

— Vamos cumprir a missão, Faísca — disse ele.

Três toques de trombeta ecoaram pelo cais.

O Grande Cisne Branco estava pronto para partir.

A Travessia

Num instante, Gabriel nos transportou para a proa. O comandante ordenou que as velas fossem abertas. Não havia vento, mas o navio começou a se mover.

Do cais, os gritos ainda atravessavam a névoa. Os viajantes respondiam com acenos e lágrimas. Rezei por todos, sem saber o que mais fazer.

Quando procurei Gabriel, ele havia desaparecido.

O Cisne entrou na neblina. Não se enxergava além de poucos metros. Exaustos de tanto chorar, os passageiros se recolheram ao silêncio. A mesma pergunta parecia ocupar todas as mentes:

Para onde estamos indo?

No meu caso, eu suspeitava que já conhecia a resposta. Precisava apenas recordá-la.

Minha cabeça tornou a fervilhar. Pensei no Grande Pai, como Gabriel havia me ensinado, e a agitação diminuiu. As lembranças voltaram a repousar atrás de um véu branco.

Pouco depois, uma claridade apareceu adiante. Tornou-se cada vez mais intensa até que o navio rompeu a neblina e alcançou o mar aberto.

O sol brilhava sobre águas azuis. Gaivotas voavam ao redor das velas, e golfinhos acompanhavam o casco, como se indicassem o caminho. Sob aquela luz, o branco da embarcação tornou-se quase impossível de contemplar.

Os viajantes se levantaram. A tristeza ainda existia, mas agora dividia espaço com o encantamento.

O tempo perdeu o sentido. Talvez tenhamos navegado por minutos; talvez, por dias.

Então várias trombetas soaram. Não tinham o tom fúnebre do Cais da Dor. Sua vibração parecia atravessar o corpo e despertar algo adormecido dentro de nós.

Ao longe, surgiu uma faixa de terra de proporções continentais.

À medida que nos aproximávamos, pudemos distinguir montanhas, árvores e construções. Fogos de artifício explodiram mesmo sob a luz do dia, desenhando formas coloridas no céu. Quando o espetáculo terminou, já víamos casas, ruas, praças e jardins.

A cidade lembrava Petrópolis, mas parecia existir em perfeita harmonia com a natureza. Flores de todas as cores contornavam os caminhos. Nada estava fora do lugar.

Era como chegar ao paraíso.

Passagem

O Grande Cisne Branco atracou em um cais inundado de luz. Gabriel reapareceu ao meu lado.

— Desembarque com os viajantes. Preciso deixá-lo por alguns instantes, mas alguém o espera.

— Quem será meu guia?

Ele respondeu com um sorriso misterioso e se transformou em um feixe luminoso. Um portal se abriu no céu e o recebeu.

Voltei-me para o porto.

Os viajantes que haviam partido em lágrimas agora choravam de alegria. No átrio diante dos portões, dezenas de pessoas os aguardavam. Aos poucos, compreendi quem eram: pais, filhos, irmãos, avós e amigos que haviam realizado a travessia antes deles.

Corriam uns para os outros. Abraçavam-se como se nenhum tempo houvesse passado.

Eu também chorei, feliz por testemunhar aqueles reencontros. Então pensei em meu irmão caçula, onze anos mais novo que eu. Daniel fizera aquela viagem em maio de 2009, no Dia das Mães.

Procurei-o entre as pessoas.

Não o encontrei.

Baixei a cabeça para esconder as lágrimas. Apesar da alegria ao meu redor, a falta dele abriu novamente o vazio que eu carregava havia anos.

Senti um leve tapa na cabeça.

— Isso acontece todo dia, seu toupeira!

Meu corpo inteiro reconheceu aquela voz antes que eu conseguisse me virar.

— Tampinha? É você?

Abracei Daniel com toda a força que possuía. Durante anos eu imaginara o que diria se pudesse vê-lo novamente, mas nenhuma palavra parecia suficiente.

— Que saudade, meu querido. Você partiu sem que eu pudesse dizer nada.

O Reencontro

Mantive as mãos nos ombros de Daniel, como se temesse que ele desaparecesse.

— Nunca fui seu irmão de verdade — confessei. — Competia com você, não lhe dava espaço. Nunca soube oferecer um abraço, um beijo ou um carinho. Quando você se foi, uma parte de mim morreu. O vazio que deixou ainda sangra dentro de nós.

— Tudo bem, seu toupeira. Acalme-se, ou sua pressão vai subir e você ficará aqui antes da hora.

Ele riu daquele jeito que eu conhecia tão bem. Depois apertou meus ombros.

— Você acha que eu não sabia que me amava? Quantas vezes tomou minhas dores como se fossem suas? Esqueceu o PlayStation que compramos juntos? Parecíamos duas crianças — principalmente você. E o dia em que me levou ao Tivoly Park? Os filmes no cinema? Às vezes em que se calou durante nossas discussões, mesmo estando certo, apenas para não me magoar?

Sorri entre as lágrimas.

— Você contava a todos os meus amigos que havia me carregado no colo com três dias de vida e trocado minhas fraldas. Por sua causa, me chamaram de Fraldinha! E acha que não percebo como cuida do Adriano, nosso sobrinho? Você tenta oferecer a ele tudo o que acredita não ter dado a mim. Isso também é amor.

A culpa que eu carregara por tantos anos começou a perder o peso.

Daniel contou que fora recebido por nossos avós, Luís e Doroteu, e por Rafael, seu guardião. Disse que nossa mãe e nossa irmã haviam pressentido sua partida e o acompanhado, em espírito, no Cais da Dor.

— Nunca deixei de estar ao seu lado — continuou. — Eu estava com você até nos momentos em que pensou em desistir da própria vida. Senti sua dor e sua culpa. Também o acompanhei quando voltou a caminhar, a viver e a procurar felicidade.

As palavras me atingiram profundamente.

— Nos sonhos, você me dizia para seguir em frente — prosseguiu. — Dizia que a dor seria suavizada pelo tempo e que eu deveria ajudar aqueles que chegassem à Passagem. Mesmo sofrendo, sua luz já voltava a brilhar.

— Então nossos encontros não eram apenas sonhos?

— Como diferenciar completamente o sonho da realidade? Você receberá os sinais necessários. O importante é que nunca esteve sozinho e jamais estará.

Ele me deu outro cascudo.

— Hoje você precisava me encontrar para libertar o amor que ficou preso em seu peito. Quando retornar, poderá confortar quem não teve a oportunidade de ver o que você viu.

— Posso entrar na cidade?

— Ainda não, sua anta. Você precisa morrer primeiro.

— Pelo menos fui promovido de toupeira para anta.

Rimos como fazíamos antigamente.

Por alguns instantes, não havia morte, distância nem arrependimento. Éramos apenas dois irmãos juntos outra vez.

A Cidade Além dos Portões

Sentamo-nos próximos à entrada da cidade. Daniel explicou que Passagem era mais do que aquele porto.

— Por que esse nome? — perguntei.

— Porque daqui partem caminhos para muitos lugares, mundos e dimensões. É um ponto de encontro. A cidade se apresenta de forma semelhante à Terra para não assustar aqueles que ainda não recuperaram suas lembranças.

Além dos portões existiam outras cidades e diferentes estágios de aprendizado. Segundo Daniel, todos viviam de acordo com princípios simples: paz, amor, honestidade e fraternidade. Alguns permaneciam ali; outros realizavam novas jornadas para aprender ou ajudar pessoas perdidas em diferentes mundos.

— Minha esposa manda um abraço — disse ele. — E você já é tio. Dei seu nome ao meu filho.

— Vocês podem ter filhos aqui?

— A vida continua criando vida. Alguns deles viajarão para a Terra quando estiverem preparados; outros seguirão caminhos diferentes.

Daniel explicou que escolhera permanecer em Passagem. Depois de superar a turbulência provocada pelo sofrimento da família, reencontrara sua alma gêmea, Adriana.

— Maurinho é tão desastrado quanto você. Eu o chamo de Pequena Toupeira.

— Arranje suas próprias palavras, seu prego!

— Eu sabia que você diria isso.

Voltamos a rir. Depois nos agarramos e começamos uma disputa de cócegas, como duas crianças. Como sempre, fui o primeiro a pedir trégua.

— Não tem vergonha de vencer um novato?

— Novato? Onde existe um novato com milhares de anos?

Passamos um tempo impossível de medir recordando nossa vida na Terra. Eu não desejava voltar.

Gabriel percebeu.

Surgiu diante de nós e anunciou que era hora de retornar. Meu corpo físico permanecia sozinho havia tempo demais, e um novo grupo já esperava pelo Grande Cisne Branco no Cais da Dor.

Abracei Daniel. As lágrimas retornaram.

— Não vá embora daqui antes que eu volte, Tampinha.

— Eu esperarei. Volte para a Terra e cumpra sua missão. Quando chegar sua hora, não apenas reencontrará Passagem, mas também se lembrará de todos os caminhos que percorreu.

— Até breve, meu irmão.

— Até breve, seu toupeira.

Gabriel chamou minha atenção para o mapa da cidade, os jardins e um símbolo gravado no chão do cais. Flores semelhantes às quatro estações da Terra cercavam o desenho. Quando tornei a olhar para a frente, Daniel já havia partido, e os portões estavam fechados.

Compreendi que Gabriel tentara me poupar de outra despedida.

Mesmo assim, doeu.

O Retorno

Segui Gabriel de volta ao Grande Cisne Branco. A embarcação deveria retornar ao Cais da Dor para receber novos viajantes.

Antes da partida, meu guardião beijou meus olhos e falou suavemente:

— Agora durma, minha criança. Em breve nos veremos novamente. Boa jornada de retorno.

O véu escuro da noite cobriu minha visão.

Depois, ouvi motores em alta rotação, buzinas e vozes nas ruas.

Despertei ao lado da cama. Estava tonto, exausto e com uma dor terrível na cabeça. Sentei-me na cadeira e tentei compreender onde me encontrava.

O dia amanhecia. Copacabana acordava para mais uma rotina de trânsito, trabalho e ruído. Meu corpo parecia completamente descarregado.

Teria sido tudo um sonho?

Comecei a reunir as coincidências: o menino da praça, o portal, o navio, Daniel, as lembranças. Quanto mais pensava, mais impossível parecia separar sonho e realidade.

Um pardal tentou entrar pela janela. Temendo que se machucasse, aproximei-me para ajudá-lo. Assustado, encontrou a saída pela janela ao lado.

Imaginei que procurasse um lugar para construir o ninho sobre o guarda-roupa. Sorri.

A paisagem diante de mim era apenas uma sucessão de edifícios, mas uma alegria intensa invadiu meu peito. Eu estava vivo. E, verdade ou sonho, estivera novamente com meu irmão.

Agradeci a Deus por ter chegado até aquele momento da jornada.

Quando abaixei a cabeça, vi algo no chão.

Era um pequeno selo.

Peguei-o e reconheci imediatamente o símbolo gravado em sua superfície: o mesmo que Gabriel me mostrara no cais de Passagem e sobre os portões da cidade.

O mundo pareceu parar.

Eu colecionava selos e sabia que aquele desenho não existia em nenhum catálogo que conhecesse. Recordei as palavras de Daniel:

— Você receberá os sinais necessários.

Sentei-me diante do computador e comecei a escrever tudo o que havia testemunhado.

A Mensagem

Não sei até que ponto podemos compreender o que existiu antes de nossa vida ou o que haverá depois dela. Talvez algumas respostas nos sejam reveladas apenas quando estivermos preparados.

O que aprendi naquela noite foi mais simples do que todas as explicações sobre dimensões, anjos ou vidas passadas: não estamos sozinhos.

Somos acompanhados durante a jornada terrena e também durante a travessia. Aqueles que amamos podem partir antes de nós, mas o amor não desaparece com o corpo. Ele atravessa o tempo, a distância e os mundos que ainda não somos capazes de compreender.

Desde então, sempre que encontro alguém que perdeu uma pessoa querida, conto a história que me foi revelada. Não pretendo eliminar a saudade, porque ela também é uma forma de amor. Desejo apenas recordar que o Cais da Dor não é o destino final.

É somente o início da viagem.

Do outro lado da neblina existem luz, acolhimento e reencontro. Há uma cidade chamada Passagem e, diante de seus portões, aqueles que partiram esperam por nós.

Até que chegue a nossa vez, precisamos continuar vivendo, amando e cuidando uns dos outros. Somos parte da mesma família, mesmo quando nos sentimos separados por distâncias imensuráveis.

E, quando nossa jornada terrena terminar, o Grande Cisne Branco estará novamente sobre as águas.

Não para nos conduzir ao fim, mas para nos levar de volta à origem.

Mauro Veríssimo
Enviado por Mauro Veríssimo em 26/06/2010
Alterado em 04/09/2026
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