Vacina para a Solidão
Às vezes, sinto uma tristeza tão grande no peito que chego a sentir falta de ar. Isso é a solidão, que marca minha vida desde o nascimento, com crises de insônia alternando-se com dias inteiros de sonhos acordados. Não me considero platônico, apesar de gostar da filosofia grega, mas confesso que vivo mais de sonhos impossíveis do que da realidade que se apresenta diante de mim.
Nossa estrada é assim, cheia de muralhas sociais a transpor. O pior é que nós mesmos as construímos, com todo o orgulho no peito, para depois sofrermos diante de tudo o que foi edificado. Aprendi que viver é muito mais do que imaginar a vida em meio ao mundo dos sonhos. Contudo, o mundo que vejo, às vezes, desperta em mim uma imensa vontade de voltar ao útero materno.
Pode ser uma crise existencial, eu sei. Tudo é possível quando perdemos o controle sobre nós mesmos. O que precisamos fazer é acreditar que podemos mudar esse cenário.
Às vezes, é importante abaixar a crista e reconhecer a própria fragilidade. É justamente nesse momento que descobrimos o quanto podemos ser fortes. Com um gesto decisivo da mente, conseguimos romper paradigmas e estabelecer uma nova ordem em nosso interior.
Tudo parece difícil enquanto permanece no campo da teoria. Quando o primeiro movimento é realizado e as antigas regras são quebradas, surge uma possibilidade de libertação. É esse movimento que vence a ideologia estabelecida e demonstra que mudar é possível.
Ainda não encontrei meu salvador ou minha salvadora. Não desprezemos a força feminina, pois as mulheres representam nosso primeiro elo com o mundo e carregam em si o mistério sagrado da vida.
Por isso, aguardo pacientemente, mesmo que essa espera custe um tempo maior do que aquele que possuo nesta existência. Acredito que tudo tenha uma lógica simples. O problema é que complicamos tanto as coisas que já não conseguimos enxergar sua simplicidade.
Talvez eu ainda esteja cego. Entretanto, se já consigo perceber esse quadro, arrisco-me a dizer que o tratamento começou.
Pela experiência adquirida, posso afirmar que não devemos nos deixar derrubar pela força da solidão. Ela pode nos ajudar a pensar e a nos concentrar, mas torna-se destrutiva quando permanece por tempo demais. Aos poucos, transforma o ser humano em alguém dependente do isolamento, viciado em estar só.
Não se deixe aprisionar por esse sistema. O retorno é difícil e demorado, mas também muito gratificante quando finalmente alcançado.
Não desisti da luta para mudar meu modo de ser e de viver. O que desejo, neste momento tardio, é encontrar amigos verdadeiros, uma companheira muito amada e uma descendência que permita à minha essência continuar caminhando por este mundo.
Posso ser um sonhador, mas nunca deixarei de lutar pelos meus sonhos. O verdadeiro morto não é aquele cujo coração deixa de bater, mas aquele que permite que a própria mente pare de pensar. Não existe morte pior do que esta: aquela que nos transforma em verdadeiros zumbis da sociedade moderna.
Creio em tudo isso porque estou retornando desse contexto que antes me vencia. Estou quase vacinado. Da plateia, observo aquilo que muitos talvez levem anos para conseguir enxergar.
Finalmente, minhas noites bem dormidas estão voltando. Retorna também a capacidade de cumprir minhas tarefas com prazer, sem a angústia de outrora. Já não passo os dias sonhando acordado; agora tenho bons sonhos no momento reservado a eles.
Nossa grande amiga, a cama, cuida para que nada façamos além de dormir profundamente. Assim, ao despertar, podemos voltar a ser aquilo que verdadeiramente sonhamos ser.
Sim... Eu estou realmente vacinado.