Chave e Fechadura
Discutimos muito sobre a vida, quem somos e o que idealizamos para o nosso futuro. Penso nisso diariamente, mas há analogias que fazem bem à mente e ao espírito, mostrando que tudo se encaixa no universo que compartilhamos.
Uma dessas comparações é o papel do homem e da mulher neste plano terreno. Qual seria o objetivo de cada um?
De forma romântica e metafórica, essa combinação entre a nossa natureza e a essência das coisas é fascinante. Tudo converge para um enlace capaz de mudar a mentalidade daqueles que enxergam as mulheres como meros objetos de conquista — descartadas e esquecidas após a batalha ganha.
Imaginemos, então, que o homem seja a chave e a mulher, a fechadura.
O homem viaja aos quatro ventos, direcionando corpo e espírito para lugares imagináveis e inimagináveis. Observa o vinho e a água, os pássaros e os animais, as flores e a vegetação. Ele pode tudo; o infinito está ao seu lado. Contudo, não nota a sutil diferença entre cores e sabores, nem a grandeza da vida — sentimentos que transcendem sua compreensão. Ele vive uma existência rica em vivências, mas sem o real sabor da complexidade que a realidade oferece.
A mulher é a fechadura. Move-se de forma serena, praticamente estável, em um espaço específico escolhido por ela. Quando encontra o seu lugar, faz dele a sua morada e ali habita pelo tempo que lhe for permitido, gerando meios de vida e preservando sentimentos em seu corpo e em sua alma. Ela é o próprio cosmos, a vida, o todo. No entanto, priva-se do conhecimento de outros universos por se dedicar exclusivamente ao ambiente que criou, cultivou e protegeu.
Quando o homem e a mulher se cruzam, a combinação perfeita acontece; é a chave que encontra a sua respectiva fechadura. Ambos se tornam únicos, um para o outro, enquanto houver vida em seus corpos. O portal se abre e um novo horizonte é descoberto por ambos, revelando o que antes era desconhecido.
A vida masculina se transforma com essa união. A mulher lhe oferece o poder de enxergar a essência de tudo à sua volta. Eles deixam de ser fechados em si mesmos, apáticos e distantes. O homem passa a diferenciar as cores e os sabores que antes ignorava, pois começa a ver através dos olhos do seu par — do seu outro eu.
A vida feminina, por sua vez, passa a vivenciar as outras realidades que desconhecia e a beleza característica de cada uma delas, experimentando a mesma transformação do homem que a encontrou.
Nesse instante, descobrem que esse elo conjugal é divinal: chave e fechadura, a base de tudo, o complemento vital para a existência. Nada é mais belo do que essa união quando ambos encontram o propósito de suas vidas.
A grande mulher, a fechadura. O grande homem, a chave. Juntos, abrem portais e preenchem com a mais pura luz os universos que antes eram vazios.
Uma chave nasce para uma única fechadura, e vice-versa; não há substitutos. Quando se perde a fechadura, a chave perde a utilidade e, da mesma forma, a fechadura sem a chave torna-se ineficaz, afastada de seu objetivo sagrado. A menos que o Grande Construtor, em um trabalho solene, restaure o elemento perdido para que o elo seja refeito — um fato raro, porém não impossível.
Assim fica o homem ao perder sua mulher: desesperado, ele volta a observar o mundo de forma opaca, sem vida e sem sabor. E a mulher se vê privada dos demais universos que antes desbravava. Restam apenas as lembranças daquele enlace glorioso e a dor da solidão pela ausência da outra metade. Todos os sentimentos lindos que vibravam em harmonia se dissipam, e o fruto da glória se perde em uma mística distância.
É um desespero sem igual. Esses seres são essenciais para a manutenção da vida e, quando esse elo se rompe, o vazio parece irreparável. Pode-se buscar por todos os cantos, mas não há respostas para as súplicas. Só resta a dor, sentimento sombrio que se manifesta e os recolhe a um estado de total desalento.
Homem e mulher, chave e fechadura. Que o elo vital da essência e da existência sempre nos mostre a vida neste contexto: onde as mulheres sejam o grande elo com o mundo e os homens, os seus guias. Essa força motriz é vital para continuar a matemática da vida, afastando o caos e encontrando, nesta terra, o cosmo em forma de alegria e amor.
Quando abrimos esse tão sonhado portal, entramos, na realidade, na verdadeira vida divina — a plenitude desejada pelos seres da criação desde o mítico Jardim do Éden.