Alienação Cultural, Chega!
Infelizmente, vivemos uma era de alienação cultural e social, um fenômeno que atinge de maneira crônica, sobretudo, as camadas menos favorecidas da sociedade.
Trata-se de uma inversão de valores, difundida pelos meios de comunicação e rapidamente assimilada por parte do público. São conteúdos opostos aos princípios de convivência social que deveríamos cultivar: violência espetacularizada, com o sangue pulsando no asfalto; programas fúteis elevados à condição de entretenimento valioso; um humor que, muitas vezes, mais parece uma tenda dos horrores; e tantas outras aberrações que passaram a caracterizar parte dos canais abertos. Tratam o público como uma massa incapaz de discernir o que é realmente correto, valioso e necessário.
Onde estão os programas semelhantes aos de Jacques Cousteau e Carl Sagan? O primeiro divulgava a oceanografia e toda a biodiversidade nela contida; o segundo conduzia o público pela cosmologia e pela astronomia, tornando o universo mais próximo de todos nós. Como eram belos esses programas! Mas desapareceram. Onde estão seus equivalentes modernos?
Nossa sociedade beira uma orgia caótica de estímulos e valores invertidos. Se nada for feito para combater esse processo, talvez não nos reste outra opção senão uma transformação radical dos valores sociais. O problema é que, em movimentos radicais, jamais sabemos quais serão as consequências e vertentes.
Como digo há tempos, parecemos viver sob um “Legislativo acéfalo, Judiciário canibal e Executivo neandertálico”, embora todos saibam receber o 13º, o 14º, o 15º, o 16º e, em alguns lugares, até o 17º salário. Perguntar não ofende: que calendário é esse, no qual um ano tem 17 meses? Isso sem contar auxílio-paletó, auxílio-gravata, auxílio-moradia e tantos outros benefícios.
Podemos começar a mudar esse cenário ao não votar em candidatos que entram no jogo político apenas para obter vantagens pessoais, sem preparo, responsabilidade ou compromisso com o interesse público.
Voto de protesto? Transformar o voto em deboche é como dar um tiro no próprio pé — com a diferença de que ele atinge todos os demais cidadãos. Não façamos do voto uma ferramenta de desprezo pela política; façamos dele um instrumento de consciência, escolha e fiscalização.
Há uma verdade incômoda: a qualidade da representação política também depende da responsabilidade com que cada eleitor escolhe seus representantes.
Por isso, precisamos de consciência e de um novo padrão social, senão por nós, ao menos por nossos descendentes. Precisamos que programas educativos retornem às telas das TVs abertas; que sociologia, filosofia, ciência política e educação para a cidadania tenham espaço real nas escolas; que crianças e jovens conheçam a história do país, seus símbolos e sua Constituição, promulgada em 1988 após um longo processo de luta pela redemocratização.
Que aprendam a exercer a cidadania com vigor, respeito e senso crítico, compreendendo que direitos caminham ao lado de deveres. Não podemos reduzir as conquistas constitucionais a interpretações convenientes. O direito de não produzir prova contra si mesmo é uma garantia fundamental, mas não deve ser tratado como autorização para fugir da responsabilidade pelos próprios atos.
Nossa sociedade é bela demais para viver submetida a conteúdos degradantes, atos de violência banalizados e programas fétidos que se multiplicam nos canais abertos.
Vamos, amigos: ainda há tempo de fugir da alienação cultural e social, esse grande mal da sociedade moderna. Somos muito maiores do que isso. O passo decisivo será dado por nós mesmos, em favor da erradicação desse mal.
Comece escolhendo melhor o que assiste, o que compartilha e aquilo que permite ocupar a sua mente. Desligar a televisão não é a solução completa, mas pode ser o começo.