Como Nascem os Universos?
Há milhares de estudos científicos sobre a zona habitável: a faixa em que um planeta orbita uma estrela sem ser excessivamente frio ou quente, permitindo, em certas condições, a existência de água líquida. Trata-se de um conceito em constante aperfeiçoamento, pois o Universo sempre nos apresenta novidades que ampliam o que sabemos sobre física, química e vida.
Em minha visão especulativa, imagino que o Big Bang de nosso universo possa ter surgido de uma liberação colossal de matéria e energia por um buraco negro supermassivo que, ao atingir uma condição extrema, entraria em colapso. Não apresento essa ideia como uma teoria comprovada, mas como uma possibilidade filosófica e poética. Refiro-me ao “nosso” universo, pois não descarto a possibilidade de existirem múltiplos universos, cada qual em seu próprio espaço-tempo. Essa imagem me recorda a ideia de curta, média e longa duração de Fernand Braudel. Por quê?
Porque, na minha ingenuidade, cada universo tem o seu tempo que, em escalas cósmicas, pode ser de curta, média ou longa duração, assim como o que neles vier a consistir das mais diversas formas de matéria.
Sabemos que, em escalas de bilhões de anos, as reservas de gás de muitas galáxias diminuirão, a formação de estrelas se tornará mais rara e, com o afastamento dos astros provocado pela expansão cósmica, é possível que, em um futuro muito longínquo, olhemos para o céu e vejamos apenas uma noite escura, sem estrelas visíveis.
Estrelas muito massivas, inclusive algumas supergigantes vermelhas, ao esgotarem seu combustível, podem terminar em explosões de supernovas e deixar buracos negros. Esses objetos podem crescer pela acreção de matéria e pela fusão com outros buracos negros, tornando-se cada vez mais massivos.
Acredito, com a infantilidade de quem sonha que, nesse futuro distante e hipotético, depois que o gás disponível diminuir, as estrelas se apagarem e os demais corpos celestes seguirem seu destino, o Universo possa ser dominado por imensos buracos negros. E imagino que, no fim desse processo, um colapso extremo possa lançar novamente matéria ao espaço, iniciando outro ciclo. É a minha visão de uma cosmogonia cíclica: não comprovada pela ciência, mas possível dentro da imaginação.
Onde entra a humanidade?
Nessa hipótese de espaço, tempo e universos — do nascimento, apogeu e ocaso — existe a eterna tensão entre a entropia e o cosmo. Talvez possamos ter existido, como espécie, ao longo desses tempos infinitos, muito semelhantes ao que somos ou profundamente diferentes, conforme as adaptações aos ambientes em que estivéssemos inseridos, como sugere a evolução darwiniana.
Talvez existam — ou tenham existido — seres primitivos, atuais ou ultradesenvolvidos em conhecimento, espalhados pelos diferentes tempos que chamamos de passado, presente e futuro. Em termos de capacidade tecnológica, poderíamos imaginá-los em diferentes patamares da Escala de Kardashev.
Dessa forma, também é possível imaginar que hoje sejamos observados ou cuidados por civilizações muito mais antigas que a nossa; e que essas civilizações, por sua vez, sejam amparadas por outras ainda mais antigas, em uma sucessão sem fim. Da mesma maneira, se nos organizarmos, num futuro próximo — assim espero — como seres humanos mais conscientes de nosso conhecimento, sabedoria e sociabilidade, talvez encontremos pelo Universo seres primitivos aos quais possamos oferecer cuidado, como talvez civilizações ancestrais tenham cuidado de nós. E assim seguiremos, conforme o caminhar da linha da vida.
É dessa forma que imagino nossa caminhada pelo Universo. Se assim não for, chamo em defesa desta esperança o ilustre astrônomo Carl Sagan, cuja obra continua a propagar-se entre nós. A ideia frequentemente associada a ele — de que um universo sem vida seria um enorme desperdício de espaço — resume bem esse espanto diante do desconhecido.
Não há como não sonhar com a possibilidade de o Universo não ser um desperdício de espaço; não há como não imaginá-lo povoado de vida. O fato de ainda não termos conhecimento suficiente para vislumbrá-la não significa que ela não exista. Um dia, talvez, nós os encontremos. Ou, quem sabe, eles nos permitam encontrá-los.
Assim espero.