Parece estranho o que eu digo:
Pela estrada que trilho,
Ninguém melhor do que eu
Conhece a doce arte
De saber como sabotar a mim mesmo!
Tudo começa com um sonho,
Uma imaginação utópica, inebriante,
Que me leva inocentemente ao cadafalso,
Para que eu tenha a cabeça cortada
E ainda sorria diante da sorte trágica
Que eu mesmo escolhi por prazer.
Tudo isso remonta a desejos e frustrações,
A escolhas seguidas de bloqueios emocionais:
A vontade de escrever, o desejo de viajar,
A ânsia por amar e ser amado.
São sentimentos que não consigo descrever,
Pois não sei dizer não.
Por que é tão complicado viver?
A vida que possuo é rica,
Porém não é a que desejo.
Olho-me no espelho e vejo outra pessoa.
Quem será? Por que está lá?
Por que esse eu não sou eu?
A mente ferve, sem respostas.
Por isso escrevo: não por inspiração,
Mas pelo desespero de aliviar a mente
Dos pensamentos que crio sem pensar.
Eles apenas afloram e entram em conflito,
Sem deixar espaço para a pura poesia,
Que nos enaltece e seduz quando é criada.
É a linda Afrodite apaixonada.
Mas que se esconde de mim
Apenas pelo prazer de me ver
Lutando para encontrá-la,
Diante do mundo em que estou,
Totalmente perdido.
Realmente, meu reflexo não me representa.
Pelo contrário: meu inimigo está à minha frente,
Rindo de mim, desestabilizando quem sou,
Tirando a paz de que preciso para me inspirar
Em cânticos e poemas de paixão.
O momento é de plena reflexão.
Preciso de tempo para encontrar o chão
E, assim, pisar a terra seca ou molhada.
Não importa.
A estabilidade é vital para retornar
À realidade que perdi
Por não saber dizer não
Nos momentos em que apenas digo sim
E me torno alguém que não sou.
Tenho que aprender a ser eu
E vencer aquilo em que me transformei,
Pois não sou o que vejo no espelho.
Esta máscara não é minha;
Este corpo não é meu:
É apenas o reflexo do que não desejo ser.
A aparência é uma delícia quando conquistada,
Saborosa quando desfrutada com prazer,
Mas mortal quando confrontada pela realidade.
É nesse momento que percebemos
Que acabamos por destruir
Todos os elementos da nossa alegria:
A felicidade autêntica dos tempos de criança,
Quando ríamos, descuidados,
Da vida que ainda não entendíamos
E vivíamos o momento
Como se fosse a eternidade.
Aprendi a lição desta vez:
O não tomou o lugar do sim de outrora.
Estou purificando e removendo este ser
Que, diante de mim, tenta imitar o que não sou.
Agora ele está perdido e, ao mesmo tempo,
Apavorado, a ponto de se perder do outro lado.
Neste momento, ele pede novamente
Que eu retorne a ser eu, o eu de fato,
E que volte a viver em sincronia comigo,
Na verdadeira realidade da vida
Que tanto busco pelos recantos do destino.
Ainda sou novato nesta modalidade de vida,
Em que vejo meu reflexo no espelho
E consigo reconhecer quem vejo,
Sem me assustar com a face do outro lado.
Em alguns momentos,
Somos o nosso próprio inimigo.
Temos que saber dizer não,
Em vez de dizer um gentil sim.
Essa é a beleza de poder escolher:
Ter o próprio reflexo como amigo
E, por meio dele, reconhecer plenamente
Que estamos fazendo as escolhas certas,
Com o sim e o não em seus devidos lugares.
Sempre!